Arta curtura

Lancei um podcast com o provocativo título de “Pancadão é cultura?”, no qual proponho discutir o que é que pode ser considerado “cultura”. Você encontra o programa aqui: www.podcastcafebrasil.com.br. Há quem divida as coisas entre alta cultura e baixa cultura. Isso me incomoda um pouco, pois essa classificação entre baixa e alta embute um julgamento de valor que é mel na sopa dos estimuladores da luta entre classes. Mesmo assim usarei essa classificação neste texto para facilitar a reflexão.

Para mim a diferença entre os vários graus da cultura está no conteúdo presente no objeto cultural e no esforço mental que ele exige para ser compreendido. “Alta” cultura é aquela que me leva para um degrau mais alto, traz conteúdo nutritivo, contribui para ampliar meu repertório e exige que eu faça esforço mental para compreender: “Mas o que será que o autor quis dizer? Será que ele é um idiota ou está sendo irônico? Não entendi uma frase, vou ter que ler de novo ou usar um dicionário...”

Sacou? “Alta” cultura é aquela que me deixa em estado de alerta intelectual, que exercita o meu cérebro, que me provoca, incomoda e dá satisfação intelectual.

Já “baixa” cultura é aquela que me deixa onde estou. Faz bater o pé, mexer a bunda, transpirar, sentir asco ou atração física, usar meus sentidos animais sem grandes preocupações intelectuais.

Qual das duas é a melhor?

Depende. Se eu estiver na Bahia, num daqueles resorts maravilhosos, na beira da piscina, com uma caipirinha nas mãos, vou curtir um axezinho rasteiro, sim senhor. Balançarei ao ritmo, apreciarei as coreografias das moças e tirarei o pé do chão. Ficarei feliz com a “baixa” cultura e sairei de lá provavelmente revigorado, endorfinado e... do tamanho que entrei. Mas se eu estiver no Auditório Ibirapuera assistindo a um show dos Mulheres Negras, também balançarei ao ritmo, mas ficarei atento para não perder as referências a outras músicas, escritores e situações, os lances de ironia, a interação entre os integrantes da banda. E a cada vez que eu perceber um detalhe, sentirei uma pequena vitória. E sairei de lá intelectualmente feliz, certamente maior do que entrei.

Sacou? Cultura tem a ver com o contexto no qual você escolhe estar. Es-co-lhe. Mas ao contrário do que acontece, quem curte a “baixa” cultura não deveria ser discriminado por quem curte a “alta” cultura. E vice-versa.

Mas se é assim, só questão de escolha, onde o bicho pega? É simples. Não vejo na “baixa” cultura estímulo para crescimento intelectual. A “baixa” cultura faz crescer a bunda, melhorar o gingado, ganhar umas minas e se divertir um bocado, o que é muuuuuito bom, mas é pouco. Quem escolhe apenas a “baixa” cultura, limita seu crescimento intelectual.

Já a “alta” cultura me obriga a fazer escolhas mais sofisticadas e a aproveitar oportunidades que não se encontram com a bunda. Porém, quem escolhe apenas a “alta” cultura provavelmente se transformará num chato de galochas.

Mas – tem sempre um mas... - aí vem o pulo do gato: é a “alta” cultura que me ajuda a escolher a “baixa” cultura que vou consumir, sacou? É a “alta” cultura que me permite escapar das armadilhas dos marqueteiros, dos truques dos trambiqueiros e dos golpes dos punguistas culturais e manipuladores de marionetes.

Não elimine, não discrimine. Priorize. Como dizem Julinho Marassi e Gutemberg na canção “Aos Meus Heróis”:

- Mexa o popozão, mas também a cabeça.

Escrito por Luciano Pires
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